terça-feira, 8 de agosto de 2017

Eu também sei escrever...


As coisas já são duras demais e isso faz com que, muitas vezes, nos sintamos no direito de endurecê-las ainda mais. E faz, também, com que venham machucar-nos com o pretexto de que isso é inevitável. As pessoas invadem a nossa casa sem pedir permissão, ditam as regras, pensam que a maior parte do mundo não sabe de nada e nos fazem desfalecer com palavras manipuladas. Entretanto, por mais que esteja tudo muito machucado aqui, aí e lá, eu quero muito escrever também. E, ao contrário, escrevo para tentar aliviar isso, menino. O que me faz escrever é a possibilidade de esvanecer a névoa e revigorar a sua casa. O que me faz escrever é a possibilidade de, enfim, te estender palavras de cura, não de guerra.
Na última semana, houve pelo menos 8 horas por dia das quais eu me dedicava apenas para questionar e responder infinitas perguntas internas. Permanecia pensando em um milhão de coisas e guardei comigo a maior parte delas. Se não, todas elas. Não porque não sei escrever sobre todas essas coisas, mas porque tenho essa mania sem sentido de guardar tudo comigo enquanto o outro se manifesta. É sempre assim, entende? Meu avô dizia que, melhor que saber falar, é saber escutar. Por isso escuto. E, enquanto escuto, guardo a minha dor no bolso para que a dor do outro possa ser o foco.
Foi aí que você me olhou...
Nos últimos dias, embora eu estivesse tão calada dentro da minha toca e não pronunciasse nem sequer uma palavra sobre meu caos de perguntas internas, você me olhou. As coisas estavam duras demais comigo, me sentia machucada e a dor se multiplicava numa fração de segundo e, ainda assim, você me olhou. Você me olhou enquanto eu questionava e respondia minhas infinitas perguntas internas e foi com o teu olhar que encontrei a resposta para uma dessas questões:
“Por que as pessoas voltam se, aqui, nada serve?
Não há como reconstruir aquilo que se quebrou, mas a possibilidade de reparo faz com que as pessoas queiram continuar. Entretanto, o reparo é algo relativo: se não nos damos conta no momento oportuno para que seja feito, nunca mais conseguimos consertar. E deixamos a oportunidade passar.”
Meu avô também dizia que, por mais que haja a tendência de sempre olharmos para quem fala, devemos mesmo é olhar para quem se cala. E, embora eu tenha passado tantos dias calada, você me olhou. E eu te olhei de volta. Foi assim, comunal, sem arder ou sufocar. Sem palavras com teorias sobre tudo, sem invasão, regras ou desfalecimento. Sem guerra. Você me olhou e pronto. E eu te olhei de volta. E, veja bem, menino, de tudo isso, o que eu mais aprendi nesses últimos dias é que nada acontece sem uma razão ou um por quê. Por isso você não perdeu o momento oportuno e não deixou passar. Você não me deixou passar.
Por último, para que sinta que ainda vale a pena ler as palavras estendidas a ti, entenda que você me serve. E tudo aqui te serve, também. Você é o amparo para consertar os meus cacos todos os dias e, todos os dias, me faz querer viver cada vez mais. Você espanta meu estado inerte, cura o que foi machucado, remenda a alma e arranca a tristeza. E é por isso que eu admito que sozinha não tenho possibilidades. E também é por isso que eu nunca me referiria a você como o meu revés. Eu jamais nomearia de “azar” o que existe de mais valioso que nem tem nome, negando tão piamente que ter sorte é ter você.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Eu sempre amei você enquanto ninguém mais nesse mundo te amaria antes de mim...


Ontem, no caminho de volta para a casa, pensei que a nossa vida se tornou um romance ruim, sabe? Daqueles que as pessoas se gostam, mas que por algum motivo (que nunca será passível de compreensão) não podem ficar juntas. Simplesmente não há possibilidades, pois acabaram fazendo coisas imperdoáveis uns aos outros. Mas sei lá, ainda acho que ninguém mais nesse mundo te amaria antes de mim. Eu nunca na vida imaginaria um romance mais triste que esse, pois quando alguém morre em um romance, não há mais o que possa ser feito e as pessoas renunciam àquele amor. Elas se sentem reconfortadas, pois aprendem que não há o que ser feito. Bem simples. Aprendem a não aprender. Mas quando as pessoas continuam vivas, é como se acontecesse uma morte estranha, uma morte não-natural, a gente tem que matar a pessoa, mas ela ainda existe, é a coisa mais estranha que alguém tem que fazer na vida: matar quem continuará vivo.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Quase choveu...


Talvez a chuva finalmente venha hoje visitar minha casa e essa possibilidade é o que me faz querer te escrever. E eu não queria escrever qualquer bobagem, qualquer palavra desconexa e sem sentido, mas sim sobre o que eu aprendi nos últimos dias (mesmo que o que tenha aprendido seja muito pouco, complicado, confuso ou seja qual for o adjetivo que insiste em querer me dar). Hoje eu aprendi que a chuva só cai quando a gente desiste de esperar. Naquele livro, ela dizia que vez ou outra o céu chove para a gente não chorar... acontece que, hoje, o dia todo quase choveu, mas não caiu uma gota sequer. Seria um sinal para que eu pudesse chorar sem ressentimentos? Quase choveu. E esse “quase” se fez tão presente em fevereiro: quase um fim, quase um começo, quase uma distância... E vou te dizer a verdade mais profunda que (quase) aprendi: antes, muitas palavras morriam em mim antes de serem ditas, eu vivi de palavras para dizer ou por dizer, mas agora o teu sentimento me acolhe e todos os dias eu quero então te contar da saudade que você não sabe que senti e dos suspiros que andei dando por aí. Eu me lembro da tua felicidade ao falar da menininha mais linda do mundo e de como você é sincero quanto ao sabor dos legumes. Eu me lembro do quanto me sinto quentinha e aconchegada perto de ti quando o ar condicionado está ligado e me lembro de ti frouxo de rir da minha bobeira. Quando lembro dessas nossas coisas bobas, dou risada baixinho e meus olhos ficam carregados de lágrimas. Hoje, eu queria muito escrever pra te dizer que  não choveu, pois as gotas derramadas foram as minhas.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

sábado, 24 de dezembro de 2016

Texto descomunal ou precisamos falar sobre dois mil e dezesseis


Desde pequena.
Eu me lembro de ter muito medo de enlouquecer. Mais de um quarto de século se passou da minha vida, a psicologia afirma que essa é a idade de risco qual a psicose acontece, mas ainda nada se manifestou, creio. Mesmo depois de tudo, nada. Também me lembro que uma das primeiras lições que aprendi é que, em geral, as pessoas se espantam quando escutam falar sobre a morte e isso deve se dar porque tudo tudo tudo acaba um dia. Sem voltas ou rodeios. As coisas acabam.  
Eu não me perdoo por ter deixado minha plantação de feijão morrer quando eu era pequena, daí por diante não deixo que minhas palavras consigam morrer também e todas elas se acumulam no meu corpo como vestígios de doença. Sei lá, parece que eu fico masturbando meus pensamentos o tempo inteiro: sempre no mesmo movimento, nunca numa conclusão final. Quando estou feliz, penso em o que fazer com a felicidade e, quando estou triste, em o que fazer com a tristeza. Não chego a nenhuma conclusão em ambos casos e sigo obsessiva por pensar. Pensando, pensando...
Em dois mil e dezesseis, tive uma série de pensamentos que só descansaram quando outro pensamento novo substituía o antigo. A Bianca, o Lucas, a pesquisa, a doença, o trabalho perdido, o vô... Passei o ano todo repetindo para mim mesma que ficaria tudo bem, “ficará tudo bem”, fiz um milhão de planos B, C, D, E... nada adiantou, nada curou. A cura nunca fez curar.

Um dos últimos pensamentos obsessivos que eu tive:
a vida sem o senhor é como outra versão da própria vida.

A rotina cumprida, a rotina quebrada. Um dia bom, um dia ruim, outro pior. Pessoas hostis e pessoas hospitaleiras, algumas que são empáticas e outras que não têm educação nem no velório. Mas nada disso importa, isso não é nem secundário, é como se não fosse nem opção. O que importa nesse instante é que tudo acaba um dia.
Às vezes penso que tudo isso é muito triste, porque de fato a gente vai se acabando até o ponto em que se esquece (nem se lembra de lembrar) e depois de um tempo “olha como o tempo passou”, nós vamos pensar. É estranho, triste, porém bonito: ainda existimos, mas acabou, morreu. Os pensamentos obsessivos são substituídos. As tristezas são substituídas. Agora nós somos apenas aquilo que fomos um dia – isso não mudará.
[Desde pequena, deixando o teu lugar na mesa, deixando a coxa do frango, pedindo bala de coca-cola (a mesma que levaram no seu velório, vô). As vezes que dormia na rede, as vezes que dormia de bruços com os pés levantados (eu faço igual, sabia?), quando desenhava cavalos nos cadernos antigos. Sua mania de ficar agachado fumando ou cortando as unhas, quando me pedia para pintar os seus cabelos, quando fazia piadas que eu não entendia ou quando me contava de como era a vida na fazenda cachoeira (porque eu trabalhava lá, e aí te levei um dia para ver, lembra?). Eu sempre ia almoçar na sua casa só para ver o senhor e a vó. Eu ia tomar café da tarde só para fazer o senhor comer um pão inteiro, reclamando por qualquer besteira. E quando o senhor adoeceu, eu sentia a tua tristeza em cada respiração fragmentada. O teu medo de morrer, vô, eu queria muito ter dito que não precisa ter medo, podia morrer porque morrer não dói.]
É a hora?
Tem coisas que a gente tem que saber a hora de deixar morrer. Por mais que cause dor, pensamentos obsessivos ou que a gente nunca na vida se perdoe por isso (como quando a minha plantação de feijão morreu). Mas é que tem coisa que não apaga, não. Eu sinto que serei um estandarte de tudo o que vivi ad infinitum.
Tem tanta coisa aqui que nem cabe.
Tanto para falar.
Que sorte a nossa ter vivido algo assim.
Uma dor em cada um, uma quase-morte ou morte completa em cada um.
E não importa que o assunto seja a morte, pois antes de tudo isso acontecer, em todos os dias que vivi, criei milhões de pretextos para querer morrer no dia seguinte, eu não me importaria. Depois de dois mil e dezesseis eu percebi que meus grotescos-pontos-de-vista sempre foram pequenos demais para eu ter tanta mágoa acumulada. Hoje eu escrevo para que as palavras possam morrer em paz, para que nós possamos ficar em paz, mesmo que escrever aqui e agora seja só uma história repetitiva que apenas espera um motivo minimalista que me faça encontrar libertação. E acho que, olha, pela primeira vez em todo esse tempo, posso dizer que por mim está tudo bem. Está tudo bem.



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