segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O amor em três atos


PARTE I

Isso poderia ser um conto, uma crônica, uma fábula até, entretanto e mais uma vez, não passa de palavras tentando ser coerentes. Eu não sei brincar de ficção, não sei inventar e dramatizar a realidade ou ditar regras endurecidas sobre todas as coisas. Não sei escrever sobre o que não existe. Quem sabe eu seja mesmo um tanto limitada ou deveras egocêntrica à ponto de ser sempre o meu personagem principal. O fato é que minhas palavras são pura autobiografia, auto relato, autorretrato.

Vez ou outra me pego pensando que o fato de já ter escrito tanto assim – com angústia presa por todo canto – tem a palavra como principal culpada. A palavra lida, escrita, pensada. A palavra que já me estenderam ou subentenderam e que se enganchou do lado de fora, fazendo brotar angústia do lado de dentro. Eu me morri tanto por culpa das palavras que quase desisti da possibilidade de me reescrever.

No entanto, mesmo tão marginalizada, ainda tenho apego com a palavra.

Com quase trinta anos de idade, de repente me ocorreu que a minha angústia, advinda do poder das palavras, está cessando. Eu anseio, com muita força, me reescrever. Acabou-se o medo de me errar e me morrer por dentro (como quando se erra palavras desconexas e se morre de angústia). E, não importa o quão torto seja, eu quero me rescrever; não quero mais ser assim, sem solução. Depois de tanto tempo e mesmo tão criminosa, a palavra ainda quer ter a possibilidade comunal de ser o (nosso) alento.

Algo brotou tão fortemente, aqui...
Como se fosse uma súbita sensação de compreensão da essência do mundo.
Esquecer de esquecer.
Epifania.

Serendipity.

Esse algo me faz querer escrever a todo momento. Entretanto, repito, não sei escrever sobre o que não existe. Talvez depois, talvez um dia, outra hora, já nem sei, pois agora só me faz sentido escrever sobre o que se passa do lado de cá. Há uma infinidade de temas dos quais eu poderia arriscar o meu contorno, mas agora eu só consigo pensar no quanto todos esses temas solventes, crônicas instrutivas, romances rasos, enfim, no quanto tudo isso é insosso. No quanto cada texto, tolo e infantil, não diz nada sobre o que realmente importa. Hoje, a minha temática é a minha perspectiva de como eu te vejo, menino.  Essa temática é sobre a perspectiva da minha realidade, tão bem configurada na tua presença, e sobre a importância de eu ter passado a ouvir cada palavra de alento depois do teu sentimento me alcançar.

Hoje, absolutamente nada daquilo antes dito têm o peso que o teu corpo e tua palavra têm, aqui, despidos e agregados à minha desordem.


PARTE II

(Continua...)


PARTE III

Eu odeio sentir tanta solidão com a tua ausência. Também odeio o fato de você precisar estar longe para que eu possa sentir que devo me reescrever e escrever para você. Quando você está longe, os móveis da minha casa me olham com pena, a cafeteria italiana permanece intocável, a cidade não me deixa descansar. Eu não tenho paz em meio a essas buzinas que não cessam, em meio à essa bagunça de pessoas andando por mim, tão rápidas, nessa cidade que ninguém consegue se doar por inteiro para outro alguém.

A cidade não quer me deixar descansar.
A solidão, sentida em cada centímetro do meu corpo, não me deixa descansar.

Hoje, a minha solidão pede pela sua palavra quando ela diz que me entende. Preciso compartilhar o café, feito na cafeteira italiana, o café que me prendeu. Eu preciso de um toque teu, um olhar teu, quem sabe? Um olhar que dissesse que entende os meus fantasmas. Precisava que, nesse emaranhado de complicações que é a vida, me dissesse mais uma vez que sabe que nunca fui incorreta com essas pessoas que me castigaram e que é preferível se preocupar com alguém que finge dor, do que fingir dor e caçoar de quem se comove com ela. Precisava que viesse, com tua calça do exército às 00:23 da noite, irritado por eu ter dormido ao te esperar, mas depois me dissesse que sim, que está aqui para mim, que vai passar, que já passou, posso abrir os olhos, pois o que me assustava, já foi embora. E que somos nós dois.  

Preciso tanto.
De qualquer coisa.
Do teu café.
Não quero viver de metades. Não posso.


Não demore. E, por favor, traga aquela caneca que esqueci no seu apartamento, faça-nos um café na cafeteira italiana, e deixe que só o final do café esfrie, pois a minha alma já não é mais só a metade. Não é só a metade. Eu quero me doar para você: o alguém que eu preciso tanto e que eu não sabia disso até que estivesse tão longe de mim. 

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Eu também sei escrever...


As coisas já são duras demais e isso faz com que, muitas vezes, nos sintamos no direito de endurecê-las ainda mais. E faz, também, com que venham machucar-nos com o pretexto de que isso é inevitável. As pessoas invadem a nossa casa sem pedir permissão, ditam as regras, pensam que a maior parte do mundo não sabe de nada e nos fazem desfalecer com palavras manipuladas. Entretanto, por mais que esteja tudo muito machucado aqui, aí e lá, eu quero muito escrever também. E, ao contrário, escrevo para tentar aliviar isso, menino. O que me faz escrever é a possibilidade de esvanecer a névoa e revigorar a sua casa. O que me faz escrever é a possibilidade de, enfim, te estender palavras de cura, não de guerra.
Na última semana, houve pelo menos 8 horas por dia das quais eu me dedicava apenas para questionar e responder infinitas perguntas internas. Permanecia pensando em um milhão de coisas e guardei comigo a maior parte delas. Se não, todas elas. Não porque não sei escrever sobre todas essas coisas, mas porque tenho essa mania sem sentido de guardar tudo comigo enquanto o outro se manifesta. É sempre assim, entende? Meu avô dizia que, melhor que saber falar, é saber escutar. Por isso escuto. E, enquanto escuto, guardo a minha dor no bolso para que a dor do outro possa ser o foco.
Foi aí que você me olhou...
Nos últimos dias, embora eu estivesse tão calada dentro da minha toca e não pronunciasse nem sequer uma palavra sobre meu caos de perguntas internas, você me olhou. As coisas estavam duras demais comigo, me sentia machucada e a dor se multiplicava numa fração de segundo e, ainda assim, você me olhou. Você me olhou enquanto eu questionava e respondia minhas infinitas perguntas internas e foi com o teu olhar que encontrei a resposta para uma dessas questões:
“Por que as pessoas voltam se, aqui, nada serve?
Não há como reconstruir aquilo que se quebrou, mas a possibilidade de reparo faz com que as pessoas queiram continuar. Entretanto, o reparo é algo relativo: se não nos damos conta no momento oportuno para que seja feito, nunca mais conseguimos consertar. E deixamos a oportunidade passar.”
Meu avô também dizia que, por mais que haja a tendência de sempre olharmos para quem fala, devemos mesmo é olhar para quem se cala. E, embora eu tenha passado tantos dias calada, você me olhou. E eu te olhei de volta. Foi assim, comunal, sem arder ou sufocar. Sem palavras com teorias sobre tudo, sem invasão, regras ou desfalecimento. Sem guerra. Você me olhou e pronto. E eu te olhei de volta. E, veja bem, menino, de tudo isso, o que eu mais aprendi nesses últimos dias é que nada acontece sem uma razão ou um por quê. Por isso você não perdeu o momento oportuno e não deixou passar. Você não me deixou passar.
Por último, para que sinta que ainda vale a pena ler as palavras estendidas a ti, entenda que você me serve. E tudo aqui te serve, também. Você é o amparo para consertar os meus cacos todos os dias e, todos os dias, me faz querer viver cada vez mais. Você espanta meu estado inerte, cura o que foi machucado, remenda a alma e arranca a tristeza. E é por isso que eu admito que sozinha não tenho possibilidades. E também é por isso que eu nunca me referiria a você como o meu revés. Eu jamais nomearia de “azar” o que existe de mais valioso que nem tem nome, negando tão piamente que ter sorte é ter você.

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